sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Mulheres do campo criam associação para comercializar polpa de fruta

Alessandra Morgado

Imagine um quintal cheio de árvores frutíferas. É certo que na época da colheita parte das frutas será perdida. Foi observando seu próprio quintal, que as agricultoras e agricultores familiares de São Félix do Xingu, região do Sudoeste do Pará, criaram a Associação das Mulheres Produtoras de Polpa de Fruta (AMPPF), que trabalha com frutas das agroflorestas, cacau e de seus próprios quintais.

A entidade, que tomou corpo jurídico em 2012, foi gestada na ADAFAX (Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Alto Xingu), mais especificamente nos Grupos de Referência da Associação, que reunia agricultores e agricultoras familiares dos grupos de Xadá, Maguary e Tancredo Neves. A experiência nasceu da percepção da falta de aproveitamento das frutas dos lotes. A Associação fez um levantamento de mercado, potencial comercial, preferência de sabores e cotação de valores, o que apresentou resultado promissor.

Administrada por mulheres, a Associação reúne produtoras de polpa artesanal da comunidade de Maguary, Tancredo Neves e Nereu, que ficam num raio que varia entre 20 e 50 km de distância na região de São Félix do Xingu. Nada é perto ou fácil naquela região, por isso, foi necessário muito esforço para colocar a ideia para funcionar buscando recursos, técnica, capacitação e até inspiração.

Com mão-de-obra totalmente familiar, a Associação processa e vende polpa de cacau, cupuaçu, acerola, cajá, açaí, manga, graviola, maracujá, goiaba, tamarindo e outras espécies que estão ali mesmo no quintal das associadas e dos associados, que participam em menor número da produção, comercialização e administração da Associação.

As frutas são processadas em casa ou numa central em Maguary, já que nesse distrito não havia luz elétrica no início do projeto, aliás, problema que atinge quase toda a região. São os agricultores que investem para fazer a energia elétrica chegar às propriedades em pleno ano de 2017.

“Cada família produz em casa e tudo é artesanal, mas passamos por cursos de capacitação para aprender a fazer o processamento adequado das frutas com todos os cuidados de higiene e saúde”, explica Maria Helena Gomes, 27, que já foi presidente da Associação e participa desde a formação do grupo.

O principal mercado para as polpas é a merenda escolar, contudo as associadas buscam voos mais altos e, com a certificação orgânica das propriedades que vem sendo implantada com apoio do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), esperam conseguir levar sua produção para outras praças. O Instituto por meio de seu programa Florestas de Valor apoia diversas organizações do município fomentando a agroecologia e comercialização de produtos. No caso da Associação, a abordagem inicial é de fortalecimento institucional e suporte para a comercialização.

O programa Floresta de Valor fortalece as cadeias de produtos florestais não-madeireiros, dissemina a agroecologia para que as áreas protegidas e seu entorno contribuam para o desenvolvimento regional, proporcionando condições dignas às populações locais e conservação dos recursos naturais. O programa atua na conservação da floresta nas regiões da Calha Norte do rio Amazonas, na Terra do Meio e no município de São Félix do Xingu do Estado do Pará. O Florestas Valor conta com o apoio do Fundo Amazônia.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) determina que, no mínimo, 30% dos itens da merenda escolar sejam adquiridos de agricultores familiares, o que gera uma demanda fixa de diversos gêneros alimentícios, inclusive, polpa de fruta. Atualmente, o quilo de polpa é vendido entre R$ 11 e R$ 12 para a merenda, já o açaí obtém até R$ 15 em lanchonetes e padarias.

Maria Helena conta que no início o projeto era uma complementação de renda das famílias e uma proposta para dar independência às mulheres, contudo, com o tempo, se tornou a renda principal e sustento de muitas famílias.

“A gente está trabalhando para conseguir uma estrutura melhor de processamento e o selo de inspeção municipal, no mínimo, porque por mais que a gente faça bem-feita, isso vai agregar valor ao produto”, afirma Maria Helena.

A tesoureira da AMPPF, Maria Josefa Machado Neves, 45, disse que com a venda da polpa as famílias passaram a ter uma renda fixa, além disso, o processo de organização da Associação ajudou a mudar a mentalidade das pessoas, que “tem gente que não tinha plantado nada, daí começou a mudar. O pessoal começou a pensar diferente e acreditar nas coisas e, com certeza, ainda vai mudar mais”.

Para as mulheres, a criação da Associação foi um caminho para a independência financeira e também aprender a empreender na floresta, já que são elas que realizam toda a comercialização de seus produtos. “Aprendemos mais com os erros do que com os acertos”, explica Maria Helena.

Com foco e bom ânimo, o grupo de 19 mulheres – o que significa também 19 famílias – trabalha por melhores resultados e reinveste parte dos recursos da venda na Associação. “A gente trabalha com as frutas que eram perdidas nas propriedades, o que significa que temos ainda potencial para crescer em produção e também área para plantar mais”, diz a atual presidente da Associação Elisangela Barros da Silva, 33.

Uma das frentes de luta da Associação é conquistar um selo de produto orgânico, a exemplo da produção de cacau da Cooperativa Alternativa Mista de Pequenos Produtores do Alto Xingu (Camppax), que reúne os produtores rurais (alguns também são maridos das associadas) de cacau, jaborandi e castanha do Brasil.

Breve histórico da Associação

Entre a ideia da Associação e sua operacionalização, esse grupo de mulheres campesinas teve que vencer diversas dificuldades, como a falta de energia elétrica, a inexperiência com a produção e venda de produtos e a autogestão.

A Associação das Mulheres teve apoio da CAMPPAX, que concedeu por dez anos, em regime de comodato, um ponto comercial para a entidade. Os recursos da reforma do imóvel e alguns insumos foram cobertos por recursos do projeto Fronteiras Florestais, além do programa Usinas de Trabalho do Consulado da Mulher, entre outras iniciativas.

A proposta começou a nascer em 2011, numa iniciativa da ADAFAX (Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Alto Xingu), que desenvolve um trabalho de apoio à geração de renda na região, por meio de ações que valorizaram e potencializavam as características locais.

No início, 38 famílias participaram da proposta, mas o grupo se firmou em 19. A primeira venda de polpa de frutas ocorreu ainda em 2011, antes mesmo no nascimento oficial da AMPPF que foi oficializada em 2012. Com apoio da Associação, as mulheres produtoras de polpa conseguiram levar seu produto para a merenda escolar da região, que continua até hoje sendo o maior mercado de seus produtos.

Darlene e Kethly - Maguary

Maria dos Santos - Maguary

Darlene - Maguary





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