quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Além da certificação: Origens Brasil® mostra a história por trás de cada produto



• Texto adptado de: Iván Ulchur-Rota
• Tradução: Martinelli translations
• Postado em: 30 de Novembro de 2016

Ciunapa Kayaba é um indígena, da etnia Kawaiweté, um dos muitos grupos indígenas que habitam o território do Xingu, ao sul da Amazônia brasileira. Também é um dos produtores do mel dos Índios do Xingu, extraído da mesma região.  Aprendi isso dando uma olhada no site de Origens Brasil®, uma iniciativa que busca utilizar tecnologia de ponta para conectar compradores com produtores de regiões como o Parque Indígena do Xingu. A proposta é ir além da certificação como a conhecemos: um selo único que mostra o trabalho e o modo de vida por trás de cada produto. Quando encontrei o mel aprendi que este, em particular, começou como marca própria dos indígenas em 2001, que foi o primeiro produto indígena no Brasil a receber um certificado de inspeção federal, e que seu sabor floral marcante depende da preservação de seu ambiente natural. Acima de tudo: vi o que está acontecendo em seu local de origem. 

O território do Xingu no Brasil, situado ao longo do Rio Xingu na Amazônia, é icônico. Expande-se por 26 milhões de hectares e está habitado por 17.000 indígenas de grande diversidade linguística. Desde 1975, tribos do território norte do Xingu lutaram contra a construção da represa de Belo Monte, um muro enorme de pedra, aço e concreto, segundo o jornal inglês The Guardian. Agora, a barragem de cinco quilômetros de largura fecha a parte norte do rio Xingu, enquanto a extração ilegal de árvores e a mineração continuam ameaçando a cultura e o modo de vida de muitas comunidades ao sul da barragem. Contudo, estas comunidades estão se organizando e resistindo: a frondosa biodiversidade destes territórios lhes permite subsistir através da coleta e comercialização de produtos obtidos da floresta de forma sustentável. Um desafio enorme: que os compradores entendam o valor destes produtos para a conservação da floresta. Nada fácil, verdade. Mas, é possível?

As histórias por trás destes produtos são, com frequência, ignoradas. Por isso, para Patricia Cota Gomes “o mercado brasileiro ainda não reconhece os valores associados a esse tipo de produto”. Patricia coordena a iniciativa no Imaflora, uma ONG brasileira sem fins lucrativos que promove transformações socioambientais nos setores florestais e agrícolas. Pelo Skype, Patricia fala emocionada e inspirada sobre o Origens Brasil®. 

“Pense-o como uma ferramenta para assegurar a transparência destas cadeias de valor”, disse-me enquanto me apresentava o conceito do Origens Brasil® em tela compartilhada. “Não fornece apenas informação sobre cada produto e seu povo. É também uma ferramenta tecnológica de rastreio e monitoramento de impacto.” O design é em geral didático e explicativo. Uma imagem de satélite junto de cada produto mostra a área de onde provém cada produto – suas origens. A Castanha do Brasil, por exemplo, é extraída do nordeste do território indígena Kayapo. Indicadores no mapa mostram a localização dos produtores, e neste caso, há muito verde ao redor destas áreas. Abaixo da foto de Nhakangroti Kayapó, um dos produtores, a frase: “Nhakangroti Kayapó integrante do Origens Brasil® que ajuda a proteger a diversidade do Xingu com seu trabalho”.

Esta nova iniciativa poderá ser transformada em uma alternativa viável para as certificações como as conhecemos: certificar através da promoção das histórias de cada comunidade, de cada povo, agregando valor a seu trabalho e produtos enquanto é gerada ao mesmo tempo informação diretamente útil para eles. Origens Brasil® permite que todos – compradores, distribuidores, produtores– possam seguir o fluxo da cadeia de fornecimento.

Segundo Patricia foi um processo lento de construção. “Levou mais de três anos”, disse. A plataforma é o resultado de um engajamento dos atores e de uma consulta geral que foi feita com todos os envolvidos na cadeia de fornecimento, incluindo organizações locais e comunidades indígenas tradicionais. Como explica Patricia, enquanto a Imaflora operava os aspectos administrativos, a essência da iniciativa era mantida através das reuniões periódicas dos comitês locais, formado pelas populações de dentro do território do Xingu e também pelo comitê das empresas que fazem parte da iniciativa, interessadas em mecanismos de rastreabilidade e avaliação de impacto mais efetivo para sua cadeia de fornecimento.

“O que você supõe que fazem os selos, depois de tudo isso?” pergunta Patricia ao terminar a conversa. “Garantem certos padrões de performance como, por exemplo, se a extração de um produto tem maior ou menor impacto no meio ambiente”. Mas com frequência os requerimentos destes selos são pouco adaptáveis à realidade de muitas populações tradicionais que vivem na floresta. Para Origens Brasil®, isto é diferente: para que um produtor seja qualificado para fazer parte, ele deve viver em uma área protegida de alta biodiversidade e deve ter uma cadeia de fornecimento operacional que conserve a floresta.

A plataforma do Origens Brasil® recebe, processa e disponibiliza informações sobre a produção e comercialização em tempo real. Esta iniciativa é um esforço importante para mostrar à sociedade, a história das populações que está por trás de cada produto.


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